Maracanã

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sábado, 29 de maio de 2010

Amor: guerra ou jogo? Seriam as mulheres grandes perdedoras ou ardilosas vencedoras?

Estávamos sentados no Caravelas. Almoçando.

A senhora escritora ( eu), os editores Tomaz e Bárbara, e o jovem poeta, Bruno Graciano, que acabava de lançar na semana anterior, na Bienal de Minas Gerais, seu primeiro livro. Na sua camiseta uma palavra cintilante: sucesso! pensei... o  mesmo sucesso que um jogador busca no jogo da vida, o sonho do vencedor, ou seria a vitória do guerreiro?

Durante a conversa, entremeada de brincadeiras, falou-se sobre o meu novo livro, de contos, cujo título "O contra-ataque do amor", remete à idéia   do quanto o tal sentimento humano, animal, Tao  selvagem e tão  natural  pode se transformar, em nossa cultura, num intrincado jogo ou numa guerra  incessante que vai oferecendo combates  ou esfacelando vítimas abatidas, o  papo foi se diluindo em reticências... cada um tem suas próprias  histórias de amor ou suas experiências que buscam redefinir sentimentos muitas vezes indecifráveis.

Falamos do papel da literatura, a tal vida que  imita a arte e do  quanto a vida pode ser muito mais surreal do que a  imaginação dos escritores.

Lembrou-se dos contos bizarros, das desculpas de assassinos para  fugirem da condenação, das mentiras de amantes  traidores, das ilusões de quem acredita ou deseja ser   amado como se fosse um ícone obsessivamente adorado,  das doenças emocionais, das atitudes passionais, e no inconsciente coletivo, a tal premissa, do "matar  ou morrer", salvar-se , em atitude de legítima defesa. 

Os indefesos da paixão, quem seriam? os jogadores que já entram em campo para perder o jogo? aqueles  que  se sentem inferiores ao  tentar alcançar  objetivos ou os que desistem de tanto buscar parceiros pelo caminho  e preferem viver de  passado  ou de saudades?

Era preciso pensar na capa do livro. Falei do meu amigo português, o Telmo Gabriel, que sugeriu uma cama onde houvesse  um tabuleiro de xadrez e peças com cabeças femininas e masculinas a disputarem o xeque-mate. 

A idéia é boa. Vamos desenvolver, em poucos dias, talvez dez,  porque a Bienal em Sampa, acontece em agosto, e o lançamento do livro, acertamos ontem, será no dia 14, um sábado, no stand da Editora Usina das Letras.

Despedi-me do grupo, rumo a  caminhos interiores que me envolvem em verdadeiros labirintos. Pus-me a pensar nas batalhas que já travei e ainda travo em nome do amor. Confesso que muitas vezes me sinto cansada. Mas luto,  porque, segundo meus companheiros de juventude, aliás inesquecíveis idealistas de esquerda, "a  luta continua".

E, por uma questão de literatura, de escrita, de viver a vida, cá estou, nesta  manhã de  um sábado  outonal, sentindo na pele e na alma, um   imenso desejo de amar com maturidade, se isso ainda for possível.

Ontem, antes do tal almoço, na minha visita  semanal ao Arruda, meu terapeuta, refletimos sobre o papel dos homens  imaturos  na passagem pela  vida de mulheres que, como eu, vão amadurecendo, vão se desiludindo, vão asssentando mais os pés no chão, vão, para desencanto dos poetas, endurecendo, emburrecendo,  esquecendo os sonhos, vão desviando  do  coração e do corpo, sentidos antes tão fortes. Mas  como diria Che : "hay que endurecer, pero sin perder la ternura, jamás".

Lembrei das  tais "tias" solteironas, pensei  nas "viúvas" eternas, questionei as "solitárias" convictas, duvidei das "abandonadas" melancólicas , estranhei as "ditadoras" sádicas, interroguei as "poderosas" comandantes, penalizei-me das " enganadas" sabedoras, arrepiei-me pelas "assassinadas" indefesas, estremeci com as "injustiçadas" apedrejadas..."sofri" pelas mulheres "perdedoras" na guerra  ou no jogo do amor...

Mas, num momento de lucidez necessária, vibrei com e  pelas  mulheres que contra-atacam. As que dão a volta, aquelas que amadurecem e vencem as  partidas. As que não se deixam partir interiormente, que vão rejuntando cacos. Que sabem colar pedacinhos com  a goma da esperança. São as que movem o mundo, criam filhos, sobrevivem, ainda se enfeitam, dançam, fazem comidas gostosas, deixam brilhar  os olhinhos olhando a lua no céu, sentem as batidas fortes  dos seus corações fatigados, mas permanecem na fé.

A fé é tudo, no  jogo,  na guerra,  na vida, é tão feminina, a tal fé. Faz crer  em  dias melhores, em  noites mágicas, em paixões possíveis, em amores premiados, em pessoas que   virão  aos nossos braços,  que nos darão um ombro pra  acalmar nossos medos e um colo  para apaziguar  nossos anseios.

Aí, recordei  mulheres tão ardilosas que sabem vencer  no jogo da vida,   porque aprenderam a crer em si mesmas, aceitaram seu papel no mundo, fingem ser manipuladas, praparam inteligentes estratégias, levantam, sacodem a  poeira e dão a volta por cima. Na próxima esquina, quem sabe lhes aguarda  um  troféu  ou um pódium?

Talvez nem vençam a corrida, ou nem consigam o título maior, mas terão, sem dúvida, para sempre, o  gosto honrado de terem sido bravas  jogadoras e corajosas guerreiras. O   segredo deve estar  no seu talento em contra-atacar, mas eu não tenho certeza disso, e quem garante que venha a ter? 

                                                    Cida  Torneros.

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